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Desde que escolhi voltar toda minha atenção ao jornalismo, minha vida tem sido uma loucura. Durmo e acordo pensando nisso. Até os sonhos não ficam livres dessa paixão que cresce sempre. Nada mais tem entrado pela minha cabeça. Quando algum outro tipo de sentimento não profissional ameça aparecer, meu cérebro já bloqueia. Afinal, deve ser assim que o corpo trabalha em situações de sobrevivência.
Um dia desses, saindo de uma pauta para um frila e correndo para uma entrevista de emprego ele falhou. Ele, o cérebro, recebeu um golpe baixo, não estava preparado para aquela onda de melancolia que dizem ser o coração quem sente. Eu descia a rua em que ia acontencer a entrevista concentrada e praticando o meu discurso quando vi um colégio e uma quadra onde várias meninas jogavam alegremente handebol. Elas deviam ter seus 15 anos, ainda não sabiam direito o que fazer com a bola, queriam apenas o gol. Fominhas, como dizem em minha terra.
Aquele cenário era fatal para mim. Mesmo não querendo fui parar direto na quadra do colégio em que estudava, passando a bola para quem, na época, já era considerada minha irmã. Mais minha irmã do que a minha própria de sangue. Fominha, ela pulava alto, corria e arremessava forte ao gol. E era gol, sempre, sempre, sempre. Ela era a melhor da sala, a melhor do time, a melhor amiga, a melhor cunhada, a família que qualquer adolescente solitária, triste e calada precisava.
Meu discurso de emprego deve ter ido parar num lugar bem escondido no meu cérebro nesse meio tempo. No meu coração, uma triste dor em pensar que nunca mais vou poder vê-la. Não adiantava querer tirar aquele sentimento do coração, ele não ia embora. Pela primeira vez em dois anos, esses sentimentos que eu tanto escondia afloraram. À flor da pele. Aqueles erros terríveis cometidos por ela nunca poderão ser perdoados, então eu simplesmente nunca admiti que não superei. Estava difícil admitir, mas aquela dor e lágrimas contidas eram de saudade. Eram e são.
Olhando para as meninas jogando, eu segurei firme e apertei o passo. Como de costume, o velho sentimento de raiva ia começar a me dominar em algum momento. Essa era a minha casca, a minha proteção. Cheguei ao meu destino, me olhei no espelho enquanto estava no elevador. Me despedi daqueles restos de sentimento. Na volta, tentei evitar a quadra, olhei apenas de relance. Ela estava vazia.






